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Os desafios do SUS — e o que crise do sistema de saúde britânico pode ensinar: 'No Brasil, tudo ainda é muito focado no médico como autoridade final' | G1

Especialistas ouvidos BBC News Brasil apontam que alguns dos desafios que hoje pressionam o sistema britânico tendem a ganhar peso também no Brasil.

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Brasil se inspirou em experiências como a britânica para criar o SUS — Foto: PA

A médica brasileira Ana Luíza Gibertoni Cruz conhece de perto os dois lados de uma comparação frequente entre sistemas públicos de saúde.

Formada no Brasil, fez residência no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, e trabalhou na atenção primária do SUS em postos de saúde de Campinas, no interior do Estado. Em 2012, se mudou para o Reino Unido e, desde então, trabalha no NHS, o sistema público de saúde britânico que serviu como uma das referências para a criação do SUS.

Hoje, atua em um hospital de Oxford, em uma unidade que tenta solucionar um dos problemas mais graves enfrentados pelo NHS: como dar atendimento primário adequado à população sem sobrecarregar ainda mais prontos-socorros e hospitais.

O sistema que durante décadas foi motivo de orgulho para os britânicos atravessa uma de suas maiores crises. Em 2025, o governo lançou um plano de dez anos para tentar reformá-lo, baseado em três grandes mudanças : transferir parte do atendimento dos hospitais para as comunidades, acelerar a digitalização e ampliar o foco na prevenção de doenças.

Para Ana Luíza, as dificuldades enfrentadas hoje pelo NHS são resultado de uma combinação que também traz alertas para o Brasil: anos de baixo crescimento dos investimentos, aumento da demanda e uma população que vive mais, mas passa mais tempo convivendo com doenças crônicas.

"A crise atual me parece o resultado de mais de uma década de restrição de investimentos, em conjunção com o aumento da expectativa de vida, em que temos pessoas vivendo mais, mas não necessariamente anos com saúde", diz a médica.

Os paralelos entre os sistemas britânico e brasileiro têm raízes históricas. Quando o Reino Unido criou o NHS, em 1948, estabeleceu um dos modelos mais conhecidos de saúde universal do mundo. Quatro décadas depois, o Brasil se inspirou em experiências como a britânica para criar o SUS.

Especialistas ouvidos BBC News Brasil apontam que alguns dos desafios que hoje pressionam o sistema britânico tendem a ganhar peso também no Brasil. E dizem que tanto os acertos quanto as dificuldades enfrentadas pelo Reino Unido podem oferecer lições sobre como se preparar para eles.

Longas esperas por atendimento primário, desigualdades regionais e falta de profissionais são alguns dos obstáculos comuns atravessados por ambos os modelos hoje.

O dilema de como obter mais financiamento para a saúde pública ao mesmo tempo em que se gerencia bem os fundos já disponíveis também aproxima realidades que podem parecer bastante distantes à primeira vista. Tudo isso em um momento de profunda mudança demográfica, com um acentuado aumento da demanda puxada pelo envelhecimento da população.

Apesar de universais, tanto o SUS quanto o NHS enfrentam dificuldades para garantir que todos os pacientes tenham o mesmo acesso e a mesma qualidade de atendimento independentemente de onde vivem. Filas, disponibilidade de profissionais e acesso a exames e tratamentos especializados podem variar significativamente entre diferentes regiões dos dois países.

No Reino Unido, os serviços oferecidos nas quatro nações constituintes — Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte — são distintos devido à natureza descentralizada do NHS, mas também têm hoje diferenças significativas em financiamento e desempenho.

Dados mais recentes mostram, por exemplo, que o País de Gales gastava mais por habitante que a Inglaterra, mas apresentava filas maiores.

Dentro da Inglaterra também há contrastes significativos. Em setembro de 2025, por exemplo, a lista de espera para tratamento eletivo na Grande Manchester era oito vezes maior do que a registrada na região da Cornualha e Ilhas Scilly, no sudoeste do país.

Ana Luíza Gibertoni Cruz diz vivenciar de perto essa desigualdade em seu dia a dia como médica infectologista e clínica geral no Hospital John Radcliffe, em Oxford, cidade localizada a cerca de 90 quilômetros de Londres.

A brasileira reconhece que o município em que trabalha fica em uma região extremamente privilegiada, com mais recursos do que muitas outras pelo país. "A desigualdade não para de crescer e percebemos isso, por exemplo, no tipo de paciente e no tipo de problema que chega no hospital", diz.

Ana atua especificamente na Unidade de Avaliação Aguda (ou AAU, na sigla em inglês) do Hospital John Radcliffe. Criada em 2010, esse tipo de clínica se especializa no atendimento rápido de pacientes com condições médicas urgentes.

Um dos pilares do NHS é o sistema de general practitioners (GPs), médicos generalistas que funcionam como a principal porta de entrada do serviço de saúde. Em geral, o paciente precisa procurar primeiro seu GP, responsável por acompanhar seu histórico clínico, oferecer atendimento inicial, monitorar doenças crônicas e decidir se há necessidade de encaminhamento para exames ou especialistas.

As AAUs foram criadas para atuar em parceria com esses médicos, servindo como uma porta de entrada para pacientes encaminhados por eles, além de outros que chegam via ambulância ou são transferidos de pronto-socorros mais lotados.

A médica brasileira explica que o serviço oferecido nessas unidades é totalmente voltado para estadias curtas, com o objetivo de poupar leitos em hospitais maiores ou grandes departamentos de emergência.

Ali, após uma triagem rápida, realização de exames e estabilização, o paciente recebe alta para casa ou é transferido para uma enfermaria especializada conforme a necessidade de internação prolongada, diz.

"Atendemos de 1.500 a 1.700 pacientes por mês", diz. "O modelo de hospital custa muito caro e acaba sendo ineficiente também."

No Brasil, o SUS implementou as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em 2007 com um objetivo similar.

Mas os as UPAs e as AAUs são um pouco diferentes, diz Maitê Gadelha, outra médica brasileira que acompanha de perto os dois modelos.

"A UPA é uma unidade de atendimento aberto, em que qualquer paciente pode chegar para ser atendido", diz. "Já esse modelo britânico é como um departamento dentro dos hospitais para tratar coisas mais rápidas."

Hoje responsável técnica pela UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Rio das Pedras, Maitê Gadelha cursou um Mestrado em Saúde Pública pela Universidade de Edimburgo e comparou NHS e SUS durante seus estudos. Segundo ela, os dois sistemas são muito mais parecidos do que se imagina.

A médica ressalta, porém, que o desafio brasileiro diante da desigualdade é muito maior devido à extensão do território, à população — que é aproximadamente três vezes maior — e aos obstáculos criados pelo financiamento deficitário em algumas áreas. Mas ela também aponta muitas congruências.

"Tanto no SUS como no NHS existem muitas diferenças em termos do tamanho das filas, por exemplo, mas também dos desafios enfrentados. O que um profissional encontra na Escócia e no País de Gales é muito diferente, assim como é em São Paulo e em Belém do Pará", diz.

Para Walter Cintra, professor de Gestão em Saúde da FGV, um dos maiores desafios do SUS hoje é aprofundar a regionalização para garantir que pacientes do interior tenham acesso a serviços especializados sem precisar enfrentar desigualdades em relação aos grandes centros urbanos.

O Brasil já é visto como exemplo para o resto do mundo por sua Estratégia Saúde da Família (ESF). Esse modelo, implantado em boa parte do território nacional, depende do trabalho dos agentes comunitários de saúde, que visitam as casas das famílias e fazem um acompanhamento de sintomas, incômodos, doenças crônicas e outros aspectos que podem impactar a vida e o bem-estar das pessoas.

Mas segundo especialistas, a regionalização de verdade, com ampla descentralização e autonomia para gestores locais e contratos de desempenho, ainda precisa ser mais trabalhada.

Essa é justamente uma das bases do plano lançado em 2025 pelo Reino Unido para reformar o NHS: mais investimentos para a criação de uma rede de serviços de bairro e maior oferta de atendimento perto da casa dos pacientes.

A ideia é que o grande foco dos atendimentos passem a ser os centros de saúde locais e os GPs, ao invés dos grandes hospitais.

O britânico Andy Brooks, presidente da National Association of Primary Care (Associação Nacional de Cuidados Primários, ou NAPC, na sigla em inglês), explica que o país ainda depende muito do trabalho dos grandes hospitais, que acabam recebendo mais financiamento, profissionais capacitados e novas tecnologias do que as clínicas de bairro.

Para tornar o acesso mais universal e distribuir melhor as demandas, diz, é preciso aproximar o atendimento dos cidadãos.

Segundo Brooks, sistemas organizados em torno das necessidades de cada comunidade, e não das estruturas burocráticas de diferentes instituições, tendem a funcionar melhor. Isso permite adaptar melhor os serviços à realidade local e evitar duplicações de atendimento.

Um modelo mais próximo das comunidades também ajuda a uniformizar o serviço em diferentes regiões do país, afirma o especialista, que também é pesquisador do The King's Fund, uma instituição de caridade independente que trabalha para melhorar a saúde no Reino Unido.

O Brasil também enfrenta um desafio que é específico da realidade local: a quantidade de médicos por habitante.

Segundo a edição de 2025 da pesquisa Demografia Médica no Brasil, por exemplo, a região Sudeste possui 3,77 médicos por 1.000 habitantes, enquanto o Norte tem apenas 1,70, menos da metade.

Para Maitê Gadelha, o problema não é necessariamente a falta de médicos, mas sua distribuição desigual pelo território e a necessidade de garantir melhor qualificação profissional.

"Nós temos muitos profissionais formados, mas não temos tantos profissionais qualificados. Isso é um grande problema", diz.

"Houve um aumento muito grande da quantidade de novos profissionais médicos formados no país. O que não acompanhou esse número de formação foi o número de vagas de residência, por exemplo."

No Reino Unido, o NHS sofre especialmente com a redução relativa dos médicos de atenção primária, os chamados GPs, segundo Andy Brooks.

Segundo ele, o sistema acabou formando mais especialistas hospitalares do que profissionais voltados para a atenção básica, justamente a área considerada fundamental para prevenir doenças, coordenar cuidados e evitar hospitalizações.

"Definitivamente, erramos na distribuição [dos médicos pelo país] e no treinamento", diz Brooks. "Há evidências de que investir em médicos generalistas melhora a qualidade de vida e reduz internações hospitalares."

Maitê Gadelha aponta ainda uma dificuldade grande do NHS em reter profissionais devido à grande carga de trabalho e estresse.

Em dezembro de 2025, cerca de 100 mil postos equivalentes a tempo integral estavam vagos no NHS da Inglaterra, o equivalente a aproximadamente 6,7% de todas as vagas. Ao mesmo tempo, entre março de 2024 e março de 2025, quase 152 mil funcionários deixaram o serviço.

Para tentar contornar o problema, uma das estratégias observadas é investir no bem-estar das equipes, com iniciativas voltadas para apoio à saúde mental do profissional e organização das agendas para reduzir a sobrecarga.

Segundo Gadelha, o sistema britânico tem trabalhado para "conseguir manter o profissional no serviço, pensando na comodidade, benefícios e saúde mental", uma abordagem que considera mais avançada do que a adotada atualmente no Brasil.

Para a especialista, o SUS poderia se inspirar nessas políticas de retenção de trabalhadores, sobretudo na atenção primária, onde o desgaste profissional e o burnout também são desafios frequentes.

Atualmente, 6,2 milhões de pacientes estão na fila aguardando tratamento no sistema britânico — Foto: Getty Images via BBC

Para o Reino Unido, reduzir a dependência dos hospitais e melhorar a distribuição dos profissionais de saúde significa também atacar um dos sintomas mais visíveis da crise: as longas esperas.

Ana Luíza convive com elas no dia a dia. "Nos pronto-socorros aqui, casos não muito graves podem ficar a noite inteira para serem atendidos e às vezes nem chegam a ser vistos", afirma.

Ela também menciona as esperas por atendimento especializado como um dos problemas do sistema.

Dados da Associação Médica Britânica (BMA), o sindicato e órgão profissional que representa médicos e estudantes de Medicina no país, indicam que, em agosto de 2026, 75% das pessoas que deram entrada em pronto-socorros foram internadas, transferidas ou receberam alta em até 4 horas.

Mas segundo a organização, um dos sintomas mais evidentes das longas filas de espera nos serviços de emergência são os chamados 'atendimento de corredor', com pacientes nos departamentos de emergência passando cada vez mais tempo aguardando tratamento ou internação em espaços não clínicos, incluindo salas de espera, depósitos, filas de ambulâncias além dos corredores do hospital.

Já em termos de cuidados secundários, como são chamados os serviços médicos de média complexidade prestados por especialistas e unidades especializadas, mais de 6,2 milhões de pacientes individuais estavam na fila aguardando tratamento em julho de 2026, segundo a BMA.

O tempo médio de espera é de 12 semanas para o início do tratamento — um aumento significativo em relação ao tempo médio de espera pré-pandemia de covid-19, que era de 7,3 semanas em julho de 2019.

Em seu plano de reforma, o governo estabeleceu uma meta de 18 semanas para que todos os pacientes recebam tratamento especializado após encaminhamento da atenção primária. Mas cerca de 2,53 milhões de pacientes estão na fila de espera há mais do que isso.

Para contornar o problema, o NHS tem investido em atendimento digital e virtual — além de em sua estratégia base focada em redes de serviço de bairro. Enfermarias virtuais, triagem remota e telemedicina para casos não urgentes foram implementadas desde 2021.

O serviço inglês também conta muito com enfermeiros e farmacêuticos clínicos para cuidados na linha de frente, gerenciando doenças crônicas e prescrevendo medicamentos de forma eficaz.

O Nuffield Trust, um centro de estudos independente sobre saúde e assistência social, calcula que mais de 98 mil profissionais clínicos não médicos em todo o Reino Unido — incluindo enfermeiros, farmacêuticos e diferentes tipos de paramédicos — possuem licença para prescrever medicamentos, o que representa quase um quarto da força de trabalho qualificada para tal função em todo o país.

Não é incomum, por exemplo, que um paciente procure o médico generalista atribuído a sua família pelo NHS com um caso simples e seja encaminhado para uma farmácia, onde pode se consultar e receber medicamentos. Remédios tomados de forma continua também são prescritos e ajustados pelos farmacêuticos associados às clínicas locais.

Atendimentos ginecológicos de rotina são conduzidos por enfermeiras especializadas e o acompanhamento pré-natal feito primordialmente por obstetrizes treinadas.

A médica brasileira Ana Luíza Cruz cita ainda os fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, que podem atender pacientes encaminhados diretamente pela triagem. Na atenção especializada, há ainda enfermeiros dedicados, por exemplo, a doenças crônicas específicas, diz.

Para ela, contar com outros profissionais de saúde é também uma estratégia para lidar com a falta de mão de obra. Mas faz uma ressalva importante: a ampliação de atribuições só funciona com treinamento adequado, regulamentação e acesso a médicos como retaguarda para casos mais complexos.

"A Inglaterra sempre teve o sistema de saúde bastante aberto às outras profissões, com foco muito multidisciplinar", afirma a infectologista. "No Brasil, tudo ainda ainda é muito focado no médico como autoridade final."

A também médica Maitê Gadelha nota que, uma diferença importante é que, no sistema britânico, a triagem inicial pode direcionar o paciente diretamente ao profissional mais adequado, em vez de colocá-lo automaticamente na fila para um médico.

Ela vê aí uma lição para o Brasil, onde esses profissionais já existem, mas nem sempre estão disponíveis em todas as unidades e ou têm a mesma autonomia: "Por que um idoso que está com dificuldade para tomar uma medicação precisa ficar numa fila durante duas ou três semanas para uma consulta com o médico, se pode ser muito bem atendido pelo farmacêutico que vai poder explicar de forma didática como proceder?", questiona.

Pacientes aguardam atendimento em Unidade Básica de Saúde da Ceilândia, no Distrito Federal — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Outro ponto importante levantado por Maite Gadelha é a gestão das filas: "qualificar" quem está na espera, em vez de simplesmente seguir a ordem de chegada.

Para isso, considera fundamental fortalecer a atenção primária e os GPs como uma espécie de "porteiros" do sistema, responsáveis por avaliar quem são os pacientes que realmente deveriam estar ali.

Nesse sentido, Andy Brooks, do King's Fund, diz que houve recentemente uma redução das listas de espera no NHS após uma revisão para determinar quem ainda precisava realmente estar na fila.

"Não é que realizamos mais procedimentos, é que algumas pessoas saíram da fila", explica.

Brooks menciona ainda a prática de oferecer incentivos financeiros a hospitais e clínicas que consigam aumentar sua atividade e melhorar os indicadores ao fim de cada ano. Segundo ele, a estratégia tem se mostrado efetiva, mas ainda restam dúvidas sobre a capacidade do NHS de sustentar a melhora dos indicadores em períodos em que não há nenhum tipo de bônus.

Mas talvez uma das liç'oes mais valiosas que o NHS pode dar ao Brasil, segundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, está relacionada à atenção ao envelhecimento da população.

É entre os idosos que Ana Luíza observa com mais clareza como a crise da saúde extrapola as paredes dos hospitais no Reino Unido.

Ela descreve situações de "internação social": idosos que não necessariamente precisam permanecer no hospital por razões médicas, mas que já não conseguem viver sozinhos ou dependem de um cuidador que também envelheceu e não consegue mais dar conta de suas necessidades.

Na região em que trabalha, parte desses casos é encaminhada para equipes comunitárias formadas inclusive por fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Elas podem avaliar o paciente em casa, fazer adaptações e acionar serviços de assistência social. Há ainda pacotes públicos de cuidados que podem prever visitas ao longo do dia para ajudar o idoso a tomar remédios, se alimentar, se limpar ou entrar e sair da cama.

Segundo a médica brasileira, a crescente integração entre saúde e assistência social se tornou fundamental no país em que a população de mais de 65 anos cresceu cerca de 69% em 50 anos, chegando a quase 20% da população.

Estima-se que até 2050 cerca de 1 em cada 4 pessoas no Reino Unido terá mais de 65 anos

Maitê Gadelha explica que uma população mais envelhecida significa lidar cada vez mais com pacientes que acumulam múltiplas doenças e necessitam de acompanhamento contínuo por diferentes profissionais, o que pressiona o sistema de saúde.

"Quanto mais idoso mais probabilidade do paciente se tornar o que chamamos de multimórbido, ou seja, ter mais de um problema de saúde que precisa ser tratado", explica.

"E o problema não é apenas a quantidade de problemas, mas a complexidade das patologias, justamente por essa interseção. E isso claramente vai gerar uma sobrecarga no sistema."

Andy Brooks, da NAPC, concorda que a demografia tem impacto sobre o sistema, mas diz que essa é apenas parte da explicação.

"Frequentemente se fala sobre o envelhecimento da população, a maior fragilidade da população e o aumento da gravidade dos casos. Há algo disso, mas boa parte [da pressão] é impulsionada por novas tecnologias e tratamentos", afirma.

Segundo Brooks, a medicina hoje consegue oferecer a um mesmo paciente uma variedade muito maior de intervenções do que há uma década.

"Há 10 anos, as pessoas iam ao hospital e só podíamos fazer os procedimentos A, B ou C. Agora, podemos fazer também D, E e F", diz. "Isso está elevando muito os custos.

O alerta talvez seja ainda maior para o Brasil.

Martha Oliveira, médica que foi diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e atualmente é CEO do Grupo Laços, voltado ao público 60+, ressalta que o país passa pela mesma transformação, mas de forma muito mais acelerada.

Entre 2010 e 2022, o número de brasileiros com 65 anos ou mais saltou de 14 milhões para 22,2 milhões, um crescimento de 57,4% em apenas 12 anos.

Em termos relativos, enquanto o grupo de mais de 65 anos cresceu cerca de 46% em relação ao total da população no Reino Unido nos últimos 50 anos, no Brasil ele cresceu 173% entre 1980 e 2022.

Ou seja, o Brasil está envelhecendo muito mais rapidamente e com menos capacidade financeira e menos tempo para preparar seus sistemas de saúde e proteção social, diz Oliveira.

"O NHS sempre foi visto como inspiração de um sistema público que funcionava bem. Só que com o envelhecimento e uma maior carga de custos, nem eles aguentaram", aponta. "E somos um país continental e muito mais pobre."

Por tudo isso, a especialista enxerga a experiência do NHS menos como uma previsão distante e mais como um alerta tardio sobre uma transformação que já começou no Brasil.

"Daqui a pouco teremos 30% da população acima de 60 anos. E aí? Não temos estrutura de saúde, estrutura de calçadas, estrutura de transporte, estrutura de socialização, nada disso pronto para esse aumento."

População idosa no Brasil cresce mais rápido do que no Reino Unido — Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Apesar do cenário de pessimismo, Oliveira destaca dois aspectos das mudanças discutidas no Reino Unido que podem servir de exemplo: tecnologia e cuidado fora dos hospitais.

"No Brasil seguimos a lógica de hospital para tudo: tive uma emergência, vou para o hospital, tem que fazer um exame, vou para o hospital, estou sentindo uma dor de cabeça, vou para o hospital", diz. "Mas os idosos precisam de cuidado básico e prevenção em casa, sem necessidade de deslocamento."

A brasileira Ana Luiza também vê o modelo de atendimento domiciliar e de assistência social britânico como um caminho.

Fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais são enviados às casas para análises periódicas e podem providenciar adaptações rápidas ou acionar a assistência social. Os idosos necessitados recebem os chamados "packages of care", pacotes de assistência adaptados ao grau de dependência do paciente.

"São cuidadores que vão, a depender da necessidade, de uma a até quatro vezes ao dia atender em casa", diz Ana Luíza Gibertoni Cruz. As visitas podem ser curtas, mas ajudam em atividades essenciais, como medicação, limpeza da casa, higiene pessoal e alimentação.

A médica destaca ainda o serviço de "hospital em casa", destinado a pacientes que precisam de cuidados de menor complexidade, como exames de sangue repetidos ou ajustes de medicação, que podem ser realizados na própria residência.

Para ela, a articulação entre hospital, atendimento comunitário e assistência social funciona particularmente bem em sua região: "Temos uma rede muito boa já organizada na comunidade".

Mas nenhuma reforma é eficiente sem investimentos adequados e uma boa gestão, afirmam os especialistas.

O que a experiência britânica sugere, segundo os especialistas, é que a pergunta não deve ser apenas quanto gastar, mas também como e onde gastar.

A melhor forma de comparar Reino Unido e Brasil é olhando os investimentos feitos em saúde por habitante.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2024, o Brasil gastava cerca de US$ 1.898 por pessoa em saúde, contra US$ 6.747 no Reino Unido. O gasto por habitante britânico era, portanto, cerca de 3,6 vezes o do brasileiro.

"Seja lá o que formos fazer para reorganizar o SUS, o financiamento tem que ser resolvido primeiro. Não adianta, não tem mágica", diz Walter Cintra, da FGV, sobre a situação brasileira.

Para o especialista, além do SUS ser subfinanciado, administrar os recursos destinados à saúde no Brasil é mais complexo devido à própria estrutura federativa nacional.

Municípios, Estados e União, ressalta, são entes federativos "em igualdade de condição": "Não há uma hierarquia, não há uma subordinação".

Cintra também chama atenção para uma diferença adicional: no Reino Unido, diz, a maior parcela dos gastos com saúde está no sistema público, enquanto no Brasil boa parte dos recursos é privada e atende uma parcela menor da população.

Mas Andy Brooks também vê problemas no NHS, como as sucessivas reorganizações administrativas e dificuldade em fazer com que dinheiro e profissionais acompanhem as prioridades anunciadas pelos governos.

O Reino Unido fala há décadas em transferir o atendimento para as comunidades, por exemplo, sem necessariamente transferir recursos na mesma proporção, diz.

"Os hospitais ainda recebem a maior parte do orçamento, apesar das promessas de direcionar para as comunidades", diz.

Para Brooks, uma possível solução seria descentralizar parte das decisões financeiras: "delegar os orçamentos localmente", aponta.

A ideia é que cada região possa aplicar recursos conforme as necessidades da própria população, em vez de receber prioridades definidas nacionalmente.

Outra lição importante deixadas pela experiência britânica, diz Brooks, é evitar que governos confundam a apresentação de grandes planos com sua execução.

Segundo o especialista, governo falham em não planejar a execução das medidas anunciadas em seus planos de reforma. É preciso, diz, reorganizar financiamento, profissionais e treinamento com antecedência para que as mudanças sejam entregues dentro dos mandatos previstos.

"O problema não é o conceito da política. O problema é a implementação", diz.

E acrescenta: é preciso também paciência para que políticas se transformem em mudanças na prática: "Saúde pública é algo realmente complexo. Não vai ficar tudo pronto em um ano."

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Friday, October 16, 2026

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