Apoteose de Neguinho da Beija-Flor chega à cena, sem atravessar o samba, em musical feito no molde biográfico | G1
O ator Izak Dahora convence como o personagem-título do espetáculo 'O Neguinho da Beija Flor – Musical', em cartaz no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro (RJ) — Foto: Mauro Ferreira / g1
Título: O Neguinho da Beija Flor – Musical
♬ Em 2024, a vida apoteótica de Neguinho da Beija-Flor virou enredo de escola de samba no Carnaval de Porto Alegre quando a agremiação gaúcha Vila Isabel de Viamão desfilou com o enredo “Neguinho do mundo, flor que a Vila Beija”.
Naquele ano, Luiz Antônio Feliciano Marcondes ainda honrava o ofício de puxador da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis – ofício do qual se aposentou após o Carnaval de 2025, ano em que agremiação fluminense conquistou o 15º título do Carnaval carioca, todos tendo Neguinho como a voz da escola.
Foram 50 anos de reinado na avenida em trajetória iniciada pelo cantor em 1976, ano em que Neguinho puxou no desfile da Beija-Flor o samba-enredo “Sonhar com rei dá leão”, composto por ele em 1975 em ação ousada que valeu a admissão do sambista debutante na Ala de Compositores da escola azul e branca.
Com a voz de Neguinho e a criatividade delirante do carnavalesco Joãosinho Trinta (1933 – 2011), a Beija-Flor foi campeã pela primeira vez na elite do Carnaval carioca naquele ano de 1976. Em suma, como puxador, Neguinho da Beija-For foi campeão ao entrar e ao sair da avenida. E, como cidadão brasileiro, Luiz Antônio é um campeão de 77 anos que driblou as vicissitudes de vida inicialmente de privações.
A apoteose existencial e profissional do artista é o mote do espetáculo “O Neguinho da Beija Flor – Musical”, estreado ontem, quinta-feira, 10 de outubro, no Teatro João Caetano, onde fica em cartaz até 1º de novembro, no Centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ), bem perto das avenidas onde Neguinho foi 15 vezes campeão ao longo de 50 Carnavais.
Seguindo o padrão dos musicais biográficos, com uma ou outra liberdade cênica, o espetáculo conta a vida de Neguinho da Beija-Flor sem atravessar o samba . Roteirista da série documental “Neguinho da Beija-Flor – Soberano da avenida” (Globoplay, 2025), o jornalista Aydano André Motta debuta como dramaturgo com conhecimento de causa. É autor de vários livros sobre Carnaval e entende os meandros da ópera popular, tanto na avenida como nos barracões.
A paixão do jornalista pelo Carnaval carioca é tamanha que, em certa passagem, a dramaturgia até se desprende da ação para promover a interação com o público torcedor das principais escolas de samba. E funciona...
A direção de Luiz Antonio Pilar reveste o musical com alta carga de espiritualidade afro-brasileira, traduzida visualmente pelas guias destacadas na cenografia de Lorena Lima. A presença de uma ialorixá, vivida com força serena por Verônica Bonfim, atravessa toda a cena e se revela decisiva na passagem dramática que retrata o câncer enfrentado por Neguinho em 2008. Na cena, a cura chega tanto pelo tratamento médico quanto pelo banho de pipoca que evoca ritual do orixá Obaluaê.
É nesse momento da doença que, ao interpretar Neguinho abatido e sem esperança, o ator Izak Dahora reitera o talento evidenciado desde a primeira aparição em cena. Como ator, Izak vive uma apoteose particular em “O Neguinho da Beija Flor – Musical” porque convence como cantor, evocando o timbre caloroso do sambista, e personifica um Neguinho crível, resiliente, mas com a alegria radiante que caracteriza o artista no imaginário popular.
Ao longo de duas horas e 20 minutos, divididos entre dois atos cronometrados com um relógio posto à direita do palco, em graciosa evocação da marcação do tempo dos desfiles das escolas de samba, o musical segue um roteiro quase cronológico da trajetória de Neguinho da Beija-Flor, mas com certa liberdade ficcional e sem a preocupação de salpicar dados biográficos.
A exceção é quando a mãe do sambista – Benedita de Carvalho Marcondes, interpretada pela atriz Lu Vieira com apropriada força feminina de mulher que foi o esteio da casa em tempos difíceis – narra alguns fatos do início da vida do filho, nascido acidentalmente no bairro carioca de Vila Isabel, mas criado em Nova Iguaçu (RJ), município da Baixada Fluminense, vizinho de Nilópolis (RJ), terra natal da Beija-Flor que acolheu Neguinho após o sambista tentar a sorte nas principais escolas cariocas.
Em Nova Iguaçu (RJ), antes de ingressar na Beija-Flor, Luiz Antônio era o Neguinho da Vala, apelido recebido porque buscava restos de comida na vala para ajudar no sustento da família. Nessa época, Neguinho enfrentava a resistência do pai – o trompetista Benedito Feliciano Marcondes, conhecido como o Bené do Piston – para se tornar sambista.
Em cena, o pai é vivido pelo ator Pedro Barreto, cuja potência luminosa da voz salta aos ouvidos e arranca aplausos da plateia quando Pedro canta músicas como “What a wonderful world” (Bob Thiele e George David Weiss, 1967), sucesso do cantor e trompetista de jazz Louis Armstrong (1901 – 1971).
“What a wonderful world” é uma das licenças poéticas de roteiro musical calcado no repertório de Neguinho da Beija-Flor e nos sambas-enredos da Beija-Flor de Nilópolis.
Como a história de Neguinho se entrelaça o tempo todo com a trajetória da Beija-Flor, pode-se dizer que Aydano também escreveu musical sobre a escola de Nilópolis (RJ). Personagens fundamentais da escola – como o patrono Anísio Abraão David (personagem do ator Bruno Quixotte), o já mencionado carnavalesco Joãosinho Trinta e o diretor de harmonia Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla (1943 – 2021) – permeiam boa parte da dramaturgia.
Provavelmente por orientação do diretor Luiz Antonio Pilar, Joãozinho Trinta é retratado com tintas caricaturais e trejeitos exageradamente afeminados pelo ator Leandro Melo em composição que surte o efeito desejado de extrair o riso da plateia. O mesmo Leandro interpreta Roberto Carlos pelo viés do humor no número em que o musical tenta refazer o encontro do Rei com Neguinho da Beija-Flor no especial de Natal de 1985.
Diante de Roberto Carlos, o artista cantou “Ângela”, abolerado samba-canção de Serginho Meriti e Carlos Alexandre também conhecido com “Negra Ângela” que se tornou o maior sucesso da discografia solo de Neguinho, suplantando o êxito do samba “O campeão (Meu time)”, composto pelo artista e lançado em single de 1979.
Este hino das torcidas de futebol também mexe com a plateia ao ser interpretado por Izak Dahora sob a correta direção musical de Matheus Camará e Rodrigo Pirikito.
Enfim, “O Neguinho da Beija Flor – Musical” é espetáculo eficiente que cumpre bem a função de exaltar Neguinho da Beija-Flor, criador e puxador na avenida de maravilhas carnavalescas como o samba-enredo campeão “A criação do mundo na tradição nagô” (Neguinho da Beija-flor, Gilson Dr. e Mazinho – Carnaval de 1978), cujo refrão é ouvido na parte final do roteiro.
Empático, o musical sobre Neguinho da Beija-Flor conduz o sambista à merecida apoteose no palco do Teatro João Caetano.
O ator Izak Dahora reproduz no musical a alegria radiante de Neguinho da Beija Flor — Foto: Mauro Ferreira / g1
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