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Economia brasileira 2027: Desafios e propostas de Flávio e Lula | G1

Presidente eleito terá que lidar com a insatisfação do brasileiro com o custo de vida e cobrança do mercado por um ajuste nas contas públicas, em meio a uma economia em desaceleração.

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Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) durante horário eleitoral nesta quinta-feira (22) — Foto: Reprodução Globo

Seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o eleito neste domingo (25/10), a economia deverá ser um "calcanhar de Aquiles" para o novo governo.

Quem tomar posse em 5 de janeiro terá que responder à cobrança do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas e lidar com a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida e o endividamento recorde. Tudo isso, em meio a uma economia que deverá crescer menos em 2027.

Para economistas ouvidos pela BBC News Brasil, nenhum dos dois candidatos apresentou planos claros para responder a esses desafios. E respostas mais concretas são aguardadas para o pós-eleição, quando a próxima equipe econômica for finalmente definida.

"Um governo bem-sucedido não vai ser aquele que vai apresentar os melhores números nesses quatro anos, mas aquele que vai conseguir deixar uma economia em condições melhores para crescer nos anos seguintes", acredita Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence.

Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o fundamental é que o eleito não perca o senso de urgência e apresente um plano objetivo para a economia e as contas públicas "na primeira hora", já que isso ficou ausente do debate eleitoral.

"O problema é que o tempo urge, porque, com esse Congresso que ganhou as eleições — apesar de ser mais à direita, o que, em um cenário de eleição do senador Flávio, poderia ser mais palatável — há outras agendas fora desse ciclo econômico, fiscal, orçamentário, e isso também impõe limitações, sobretudo se não tiver um plano coeso, um plano claro", diz Salto.

Entenda os três principais desafios do próximo presidente na economia, como os dois candidatos dizem que responderão a eles e o que de fato precisaria ser feito, na visão de economistas.

O novo presidente vai ter que lidar com uma dívida pública no maior nível desde a pandemia. A dívida bruta do governo geral — que inclui governo federal, Previdência, Estados e municípios — chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país), segundo o Banco Central.

A dívida cresce quando o governo gasta mais do que arrecada com impostos. Sem dinheiro em caixa, ele é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado, a juros mais altos, numa "bola de neve" fiscal.

A dívida pública alta — e sem perspectiva de estabilização do seu nível em relação ao PIB nos próximos anos — gera dúvidas quanto à capacidade do governo de honrar suas obrigações.

Com isso, o Banco Central diz ter dificuldade de baixar a taxa de juros. Isso encarece investimentos e empréstimos e reduz o crescimento da economia, afetando a vida dos brasileiros em geral.

Flávio Bolsonaro tem dado sinais ambíguos sobre como pretende lidar com a questão. Por um lado, ele fala em um "tesouraço" no gasto público e nos impostos, e seus auxiliares na área econômica têm prometido em entrevistas e nos bastidores um ajuste fiscal da ordem de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses de governo, equivalente a um corte de gastos de R$ 190 bilhões a R$ 250 bilhões.

Por outro lado, o senador tem prometido aos eleitores que vai manter o reajuste real do salário mínimo e que não vai desvincular aposentadorias e benefícios sociais do salário-base. Afirma ainda que não vai reduzir os pisos constitucionais dos orçamentos da Saúde e da Educação e diz que seu ajuste das contas públicas deverá ser centrado em cortes de ministérios, cargos comissionados, despesas administrativas e supersalários do funcionalismo público e no combate à corrupção.

Já Lula, com seu pacote eleitoral, criou despesas fiscais com impacto de quase R$ 200 bilhões até 2030, segundo cálculo da Warren Investimentos, anterior à proposta de tarifa zero nos transportes aos fins de semana.

O presidente também segue dizendo que o crescimento da economia e a ampliação da arrecadação decorrente disso são o caminho para reduzir a dívida pública, sem se comprometer com cortes de despesas.

"Não temos, de nenhum dos dois candidatos, propostas ainda bem definidas [de ajuste fiscal], esse é um debate que ficou para depois da eleição, porque todas as propostas passam por redução de despesa, algo que é obviamente impopular", avalia Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter.

A diferença, na visão da economista, é que Flávio contará com maior condescendência do mercado no início de seu governo, por conta da experiência do governo de Jair Bolsonaro (PL), em que o salário mínimo foi ajustado apenas pela inflação (sem ganho real), e o teto de gastos do governo Michel Temer (MDB) foi mantido, com a desvinculação dos pisos de gastos com saúde e educação a percentuais fixos da receita do governo.

Já Lula tem um desgaste de credibilidade, após quatro anos de governo sem controlar o gasto, o que foi agravado pelas diversas promessas eleitorais que ampliam a despesa e reduziram arrecadação, como o Desenrola 3.0; o perdão de dívidas, o Pix de R$ 5 mil e o aumento do teto do MEI; a proibição das bets; o aumento do Bolsa Família; e a manutenção da desoneração sobre combustíveis.

Nesse cenário, tanto a economista do Inter, quanto Felipe Salto, da Warren, acreditam que, passada a eleição, "a realidade vai se impor", e algum ajuste terá de ser feito, por qualquer um dos dois presidenciáveis.

No caso das promessas de Flávio, Salto observa que "a conta não fecha", porque não é possível reduzir a carga tributária como tem prometido o candidato mantendo o Estado de bem-estar social previsto na Constituição de 1988.

Ao mesmo tempo, promessas de fazer a economia apenas cortando ministérios e vendendo ativos "não colam", diz ele, porque não geram uma economia suficiente para o país passar do déficit primário ao superávit — o que só aconteceria mexendo nos gastos obrigatórios e nas isenções fiscais.

"Se o Flávio ganhar, acontecerá uma frustração para aqueles que acreditaram nesse Flávio novo do segundo turno, que é o Flávio que diz que vai aumentar gastos, que o ajuste dele vai ser de corte de desperdícios, de redução de ministérios, porque a gente sabe que por aí não tem como fazer economia relevante", acredita Salto.

Um indício de que Flávio deverá frustrar eleitores e agradar o mercado, diz o economista, é sua postura com relação à escala 6x1 . O senador votou a favor da proposta na última hora e sem comparecer presencialmente à votação, enquanto sinalizava a empresários nos bastidores que, se eleito, deve rever a medida.

No caso de Lula, Rafaela Vitória observa que, se reeleito, ele deverá enfrentar uma deterioração das chamadas condições financeiras, com juros futuros e dólar em alta, por conta da descrença do mercado em sua capacidade de fazer um ajuste fiscal. Isso pressionaria a inflação.

"O governo seria forçado a tomar algumas medidas, ainda que impopulares e contra o que foi anunciado na campanha, por conta da volatilidade mais negativa no mercado", diz a economista.

Rafaela Vitória e Salto, no entanto, avaliam que, mesmo que isso aconteça, não seria comparável ao "cavalo de pau" dado por Dilma Rousseff (PT) em 2015, com a adoção de um ajuste fiscal duro, contrário às promessas de campanha à reeleição da ex-presidente.

"Acredito que existe uma diferença do atual governo em relação à Dilma", diz a economista-chefe do Inter.

"O diagnóstico de que é preciso controlar o crescimento de gasto existe. Naquela época, o diagnóstico era de que gastar mais era bom, você tinha o 'gasto é vida'", observa.

"Hoje, desde o [ex-ministro da Fazenda, Fernando] Haddad, mas também sob [o atual ministro, Dario] Durigan, existe um diagnóstico de que ter responsabilidade fiscal é importante para estabilizar preços."

Salto defende que, qualquer que seja o eleito, o ajuste deve ser feito de forma gradual, sob o risco de o país entrar em recessão — ou seja, haver uma queda prolongada da atividade econômica — com um corte muito agudo.

"A economia já está em desaceleração desde meados de 2025, as projeções já indicam um crescimento próximo de 1% para o ano que vem", observa.

"Se você fizer um ajuste abrupto no primeiro ano, assumindo que ele fosse possível politicamente, colocaria a economia em recessão."

Como parte de um pacote gradual, Salto defende um corte de 50% nas emendas parlamentares; a desindexação da Previdência e benefícios ao salário mínimo, com reajuste passando a ser definido pelo Executivo; a submissão da correção dos pisos de Saúde e Educação ao arcabouço fiscal, limitando o crescimento a 2,5% ao ano — o que já foi feito no governo Lula 3 para o reajuste do mínimo; uma revisão ampla do gasto tributário, incluindo entidades filantrópicas, regimes especiais como o Simples, a Zona Franca de Manaus, e abatimentos para pessoas físicas no Imposto de Renda; o fim dos supersalários, entre outras medidas.

Já Rafaela Vitória avalia que as principais medidas que teriam credibilidade seriam a desvinculação de gastos obrigatórios, incluindo o atrelamento dos benefícios sociais e aposentadorias ao salário mínimo; e a desvinculação dos pisos de Saúde e Educação da receita.

Um segundo desafio para o próximo presidente será um crescimento menor da economia, que, na visão dos analistas, "já está contratado" para 2027.

No boletim Focus do Banco Central mais recente, a mediana das expectativas dos analistas é de uma alta de 1,83% do PIB neste ano e de apenas 1,32% no próximo. Mas economistas avaliam que o resultado pode ser ainda mais fraco em 2027, próximo de 1%.

A perda de ritmo deverá ser influenciada por uma redução dos estímulos fiscais pelo governo federal e governos estaduais em 2026, em meio à corrida eleitoral. Ao mesmo tempo, os investimentos devem seguir pressionados no começo do ano pelos juros ainda elevados.

A esse cenário deve se somar uma retração da agropecuária, setor que tem puxado o desempenho do PIB nos últimos anos, por conta das quebras de safra esperadas com o El Niño forte — o que também deve pressionar o preço dos alimentos.

"Estamos projetando uma queda de 0,7% do agro no ano que vem, devido à questão do El Niño", diz Imaizumi, da 4intelligence. "Está vindo um monstro climático, que está sendo subestimado."

O eleitor costuma avaliar o governo pelo que sente no bolso. Se o início do mandato for de economia fraca, uma percepção negativa pode se consolidar cedo e pesar na popularidade do presidente, na relação com o Congresso e nas perspectivas de reeleição ou sucessão.

Em seus programas, os candidatos não focam especificamente em 2027, mas ambos trazem propostas para estimular o crescimento econômico nos próximos quatro anos.

O candidato do PL promete dobrar o ritmo de crescimento médio do país, de 2% para 4% ao ano, incluindo medidas como a facilitação do licenciamento ambiental, um "revogaço" regulatório, desestatizações e atração de investimento privado em concessões, redução da carga de impostos e da burocracia, flexibilização trabalhista e redução do custo do trabalho.

Promete ainda adicionar valor aos minerais críticos (lítio, nióbio e terras raras) para atrair indústrias de ponta e data centers ; racionalizar encargos da conta de luz e incentivar a exploração de gás não convencional ( fracking ) e o agronegócio.

Já o petista aposta na indução estatal ao investimento privado, com a continuidade de programas como o Nova Indústria Brasil (NIB), de reindustrialização; uma segunda edição do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de investimentos em infraestrutura e na área social; e o Plano de Transformação Ecológica (PTE), de crescimento sustentável.

O plano de Lula combina isso com propostas de fortalecimento da demanda interna, por meio do crescimento da massa salarial, e apoio a micro, pequenas e médias empresas por meio do alargamento de linhas de crédito produtivo (como Pronampe, Procred 360 e Acredita).

"Um governo regular [na economia] conseguiria evitar uma deterioração significativa das questões fiscais e, ao mesmo tempo, manter a economia crescendo de maneira moderada, sem ser de forma artificial, colocando mais despesas públicas", opina Imaizumi.

"Um bom ou ótimo governo seria aquele que, além de estabilizar a questão das contas públicas, conseguisse implementar reformas que realmente aumentassem o potencial de crescimento do país", afirma, acrescentando ser cético quanto a isso, qualquer que seja o eleito.

Já Rafaela Vitória, do Banco Inter, acredita que, se o cenário de desaceleração da economia for acompanhado de uma mudança no rumo fiscal, uma queda de juros pelo Banco Central se torna mais factível, o que pode limitar a perda de ritmo da atividade.

"Mesmo que a gente tenha um semestre de atividade mais parada [no início de 2027], o fato de termos o Banco Central com mais espaço para cortar juros traz uma expectativa de retomada desse crescimento já no final de 2027 para 2028", acredita.

"Agora, se o governo demorar muito para atuar nas medidas e o Banco Central não puder cortar juros com mais celeridade, a desaceleração pode se prolongar ou até mesmo termos uma recessão."

Por fim, o terceiro grande desafio do próximo presidente na economia será reverter o mau humor dos brasileiros, provocado pelo custo de vida elevado e endividamento recorde nos últimos anos.

Levantamento feito por Bruno Imaizumi, da 4intelligence, mostra que o eleitor chegou às urnas em 2026 com poder de compra acima das eleições de 2022, mas ainda abaixo do pré-pandemia.

O salário mínimo em setembro deste ano (R$ 1.621) comprava 1,76 cesta básica, ante 1,61 em igual mês de 2022, e mais 2 ao longo de 2019, último ano antes da emergência da covid-19. O maior valor da série foram 2,28 cestas básicas em março de 2012, considerando o valor da cesta de São Paulo, em série do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Já o percentual de famílias endividadas recuou para 81,7% em setembro, na primeira queda do indicador no ano, após sucessivos recordes, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

As empresas também enfrentam situação complicada, com diversos pedidos de recuperação judicial no setor de varejo e no agronegócio.

Para lidar com a questão do custo de vida, Lula propõe manter a política de valorização real do salário mínimo e a inflação sob controle. Para baratear alimentos, o petista acena à agricultura familiar, propondo ampliar o Plano Safra da Agricultura Familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a oferta de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). Também promete baratear a energia elétrica e que a Petrobras retome o segmento de distribuição de combustíveis.

Para endereçar o problema do endividamento, o presidente lançou medidas diversas ao longo da campanha eleitoral, como o Desenrola 3.0, o perdão da dívida de MEIs e a proibição das bets.

A nova versão do Desenrola, diferentemente das anteriores, propõe comprar carteiras de dívidas com desconto de até 90%, repassando a dedução ao devedor, com o objetivo de limpar até R$ 150 bilhões em dívidas dos brasileiros até meados de 2028.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe responder à questão do custo de vida reduzindo imposto sobre o consumo. Em seu programa de governo, ele sugere ainda simplificar a conta de luz, racionalizando encargos e subsídios cruzados; e reduzir o preço dos alimentos por meio da criação de "corredores logísticos inteligentes" para diminuir o custo do transporte, a ampliação da capacidade de armazenamento de safras e o estímulo à produção nacional de fertilizantes.

Com relação ao endividamento, o candidato do PL tem indicado usar a Caixa Econômica Federal para recomprar dívidas — proposta semelhante ao Desenrola 3.0 de Lula –, mas o senador foi além e se comprometeu, no debate da Band, a dar carência de seis meses para as famílias e de um ano para as empresas iniciarem o pagamento. A proposta repercutiu mal entre agentes do mercado financeiro, que, nas redes sociais, disseram considerar a medida um "calote bancário".

Para Bruno Imaizumi, as propostas dos candidatos não tocam em agendas de longo prazo. Ele avalia que reduzir o custo de vida, em uma economia ainda muito dolarizada como a brasileira, exigiria valorizar a moeda nacional, o que, na sua visão, só seria possível com reformas estruturantes.

"Ficamos muito mal acostumados a discutir uma única grande reforma por mandato. E essa reforma, geralmente, vem muito desidratada", afirma. "Por isso a relação entre os Três Poderes é tão importante, porque nos falta discutir os problemas estruturais."

Com relação ao endividamento, Imaizumi também avalia que as propostas dos dois lados são paliativas, e que uma solução de longo prazo exige reduzir os juros no país, o que só será possível com o reequilíbrio das contas públicas.

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Friday, October 23, 2026

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