“Comércio global vive momento crítico”, alerta OMC | G1
Organização pede reforma das regras internacionais e alerta que uma fragmentação do comércio poderia reduzir o PIB global em até 6,9%
A Organização Mundial do Comércio ( OMC ) afirmou nesta terça-feira (15) que o sistema de comércio global vive um “momento crítico” e defendeu uma reforma das regras que organizam as relações comerciais entre os países.
O alerta ocorre em meio ao aumento das disputas comerciais e à adoção de novas tarifas por grandes economias, especialmente os Estados Unidos. Para a OMC, o risco é que o comércio mundial deixe de funcionar cada vez mais com base em regras comuns e passe a ser dividido em blocos de países.
Segundo a organização, as regras atuais têm dificuldade para acompanhar mudanças na economia mundial, como o aumento da intervenção dos governos, o avanço do comércio digital, a transformação das cadeias globais de produção e o aumento das tensões políticas entre as grandes potências.
Fio: como as guerras comerciais foram se acumulando
A grande virada veio em 2018, quando o governo de Donald Trump começou a impor tarifas sobre produtos chineses, alegando práticas comerciais injustas e transferência de tecnologia. A China respondeu com tarifas sobre produtos americanos, dando início a uma escalada que ficou conhecida como guerra comercial.
Mesmo depois de um acordo parcial entre EUA e China, a relação comercial continuou marcada por tarifas, restrições a tecnologias e disputa por setores estratégicos, como semicondutores, baterias e veículos elétricos.
O Canadá também entrou no radar das medidas protecionistas americanas. Nos últimos anos, os dois países trocaram medidas sobre produtos como aço, alumínio e, mais recentemente, outros setores. A relação é especialmente sensível porque EUA e Canadá têm uma das maiores relações comerciais do mundo.
Em 2025/2026, o Brasil também passou a enfrentar novas tarifas americanas. Em julho de 2026, o governo brasileiro levou a disputa à OMC, contestando as medidas dos EUA.
E a China entrou no centro de novas disputas
A expansão das exportações chinesas, especialmente em setores como carros elétricos, aço e produtos industriais, passou a provocar novas reações de EUA, União Europeia e outros parceiros. Governos acusam Pequim de subsidiar empresas e gerar excesso de oferta, enquanto a China critica o uso de tarifas para proteger mercados.
O alerta desta terça-feira é que as disputas comerciais podem ir além de tarifas isoladas. Para a organização, o risco é que o comércio mundial se divida em grandes blocos, enfraquecendo as regras comuns que organizam as relações entre os países.
Fragmentação teria impacto na economia mundial
A OMC calculou o que poderia acontecer caso o comércio internacional se dividisse em blocos geopolíticos concorrentes.
Nesse cenário, o PIB global seria 5,1% menor até 2050, enquanto as exportações cairiam 18,6%, em comparação com um mundo sem essa fragmentação.
Em uma situação ainda mais grave, em que a cooperação comercial entre os países entrasse em colapso e fosse substituída por uma série de acordos de livre comércio separados, o impacto seria maior: o PIB global poderia ficar 6,9% menor e as exportações cairiam quase 27%.
O efeito não seria igual para todos. Segundo o relatório, os países menos desenvolvidos seriam os que mais poderiam perder com uma fragmentação do comércio.
Por outro lado, uma cooperação multilateral mais forte poderia aumentar o PIB global em 2,9% e elevar as exportações em quase 18%, de acordo com as estimativas da organização.
Durante décadas, a OMC foi um dos principais fóruns para estabelecer regras para o comércio internacional e resolver disputas entre países. Esse sistema, porém, vem perdendo força: o principal mecanismo de recursos da organização, o Órgão de Apelação, está paralisado desde 2019, depois que os Estados Unidos bloquearam a nomeação de novos integrantes.
Na prática, os países continuam podendo levar disputas à OMC, mas ficou mais difícil chegar a uma decisão final e fazer com que o processo avance até o fim.
Mesmo nesse cenário, o Brasil recorreu à organização em julho para contestar tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. A iniciativa foi vista também como uma forma de registrar formalmente a contestação e defender a importância das regras multilaterais.
Países têm dificuldade para reformar a OMC
A organização reúne 166 membros e funciona, em grande parte, com base no consenso. Isso significa que mudanças importantes dependem da negociação entre países com níveis de desenvolvimento e interesses econômicos muito diferentes.
Em março, os membros não conseguiram chegar a um acordo sobre um pacote de reformas durante uma reunião ministerial em Yaoundé, nos Camarões.
As negociações foram retomadas em Genebra e envolvem temas como a forma de tomada de decisões da organização, a solução de disputas comerciais e os efeitos de subsídios e da intervenção dos governos nas economias.
Ao mesmo tempo em que a OMC tenta reformar suas regras, países têm buscado acordos regionais ou específicos para determinados setores, enquanto governos usam tarifas e negociações diretas para defender seus interesses.
Em março, por exemplo, um grupo de membros da organização concordou em avançar com as primeiras regras básicas para o comércio digital por meio de um acordo plurilateral, sem a participação de todos os integrantes.
A medida permite avançar entre um grupo de países mesmo sem um acordo que envolva os 166 membros.
A medida mostra uma das alternativas que vêm sendo usadas para tentar avançar em temas específicos mesmo quando não há consenso entre os 166 membros.
Para a OMC, o desafio é evitar que essas disputas levem a uma divisão permanente do comércio mundial. Segundo a organização, quanto mais o comércio se afastar de regras comuns, maiores podem ser os custos para a economia global, principalmente para os países mais pobres.
Donald Trump dos EUA, Lula do Brasil, Carney do Canadá e Xi Jinping da China — Foto: REUTERS
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