Brasil deve cortar juros, e EUA, subir; entenda o efeito no seu bolso | G1
Mercado espera Selic em 13,75% e taxa americana entre 3,75% e 4%. Mais do que as decisões desta quarta, investidores estarão atentos aos sinais sobre os próximos passos, que podem afetar dólar e crédito no Brasil.
Homem passa em frente ao Federal Reserve, em Washington, nos Estados Unidos, em 16 de dezembro de 2015. — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque
A chamada “ Superquarta ” desta semana terá uma particularidade: os dois principais bancos centrais envolvidos devem caminhar em sentidos opostos nos juros.
No Brasil, o Copom deve cortar a Selic de 14% para 13,75% , segundo as projeções de mercado. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve ( Fed ), o banco central americano, deve voltar a aumentar os juros, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano .
A aposta de que o Fed vai elevar os juros disparou a 92,5%, segundo o FedWatch Tool , ferramenta que mede as expectativas dos investidores para as decisões do banco central americano.
🔎 A probabilidade ganhou força após discursos mais duros de dirigentes do Fed, entre eles o presidente Kevin Warsh, que sugeriu que o banco central americano pode precisar aumentar os juros para conter a inflação . A alta do petróleo para mais de US$ 100 o barril, em meio ao conflito entre EUA e Irã, também reforçou essa expectativa.
O motivo é a inflação americana, que insiste em ficar acima do que o Fed considera confortável: 3,4% em 12 meses, longe da meta de 2%. A atividade econômica, por sua vez, perdeu fôlego — cresceu 0,4% no segundo trimestre, ante os três meses anteriores.
No Brasil, os números são parecidos, mas o significado é outro. A inflação em 12 meses está em 4,22% , ainda dentro da margem de tolerância da meta do BC, e a economia cresceu 0,5% no segundo trimestre , uma desaceleração contra os 1,1% registrados nos três meses anteriores.
Como a alta dos juros americanos já é esperada, ela deve ter pouco impacto imediato nos mercados. O que importa agora é saber se será o início de uma sequência de altas ou um movimento isolado.
A resposta ajuda a entender como a decisão do Fed pode chegar ao bolso do brasileiro — pelo dólar, pelo crédito e por outros caminhos que o g1 explica a seguir.
Efeito não aparece na hora, mas vem depois
A decisão do Fed pode chegar ao Brasil por diferentes caminhos, mas dois deles afetam mais diretamente o dia a dia: o dólar e o crédito . Os efeitos, porém, não costumam aparecer de imediato.
Fernando Benavenuto, especialista em investimentos e sócio-fundador da Anvex Capital, explica que um deles é o câmbio — o mercado em que moedas são negociadas e que define, na prática, quanto custa comprar dólares em relação ao real.
“O efeito sobre a vida concreta do brasileiro é mais lento e vem por vias indiretas. Um dólar estruturalmente mais pressionado encarece importados e insumos, o que leva semanas a meses para chegar à prateleira.”
O outro caminho é o crédito. Benavenuto destaca que juro alto lá fora “reduz o espaço para o Banco Central cortar a Selic aqui” — ou seja, o financiamento da casa própria, os empréstimos e o rotativo do cartão podem continuar caros por mais tempo do que o esperado.
Fed deve interromper período de estabilidade e elevar juros dos EUA — Foto: Arte/g1
Acontece que a decisão desta quarta-feira, por si só, não conta toda a história. Junto com a decisão, o Fed divulga projeções que ajudam os investidores a entender para onde os juros americanos podem caminhar nos próximos anos.
"O mercado vive de expectativas. A alta em si mexe muito pouco com o dólar, mas o sinal do que pode ocorrer nas próximas reuniões mexe e muito com a moeda", destaca Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital.
Se o comunicado do Fed indicar novos aumentos pela frente, os investidores tendem a buscar títulos americanos , que são seguros e passam a oferecer uma remuneração maior. ➡️ Com mais dinheiro direcionado para esses investimentos, o dólar pode ganhar força.
Benavenuto segue a mesma linha e destaca que a “verdadeira má notícia” para o real não é a alta desta quarta-feira, mas uma sinalização de que os juros americanos permanecerão altos por mais tempo ou chegarão a um nível maior do que o previsto.
🔎 Isso pode diminuir a diferença entre os juros oferecidos no Brasil e nos EUA. Essa diferença ajuda a tornar os investimentos em reais menos atraentes para investidores estrangeiros: quanto maior a vantagem dos juros brasileiros, maior tende a ser o incentivo para manter recursos no país.
“Se o Fed indicar juro terminal mais elevado, esse diferencial se comprime e a moeda brasileira perde parte de seu principal pilar de sustentação. O tom da comunicação pesa mais que o número", diz Benavenuto.
Quanto é culpa do Fed e quanto é da eleição?
Ainda assim, o Fed não é o único fator que pode mexer com o dólar nas próximas semanas. No Brasil, a situação das contas públicas e a eleição de outubro também podem aumentar a pressão sobre o real.
🤔 Então, se a moeda americana subir, como saber o que veio de fora e o que veio do cenário brasileiro?
Benavenuto explica que separar os fatores com precisão é difícil, sobretudo porque as incertezas com as contas e o cenário eleitoral já exigem um prêmio maior para o investimento em real. Mas há uma forma de identificar melhor a origem do movimento: comparar o desempenho da moeda brasileira com o de outros países emergentes.
"Se o dólar sobe contra todo o mundo, a origem é externa. E se o real ‘apanha’ mais que o peso mexicano, o rand sul-africano ou o peso chileno, a origem é doméstica", explica.
A leitura, porém, não é tão simples a ponto de permitir dividir o movimento do dólar em parcelas. Magno ressalta que fatores externos e domésticos podem atuar ao mesmo tempo — e até se anular nos próximos meses.
"Se o tom do Fed for muito duro quanto a subir juros, o dólar tende a subir também. Porém, se [o resultado das eleições] abrir caminho para um Brasil com um arcabouço fiscal bem elaborado e crível, pode gerar confiança nos investidores estrangeiros e valorizar o real frente à moeda americana."
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